Chico Cesar – Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2002)

“Música, Política e Identidade Negra”

Felipe da Costa Trotta – Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF). trotta.felipe@gabrielbluesyang

Kywza J. F. P. dos Santos – Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE. kywzafideles@gmail.com

Resumo

A música popular é um artefato midiático através do qual são negociados socialmente pensamentos, valores, ações e estratégias de identidade individual e coletiva. Neste artigo, analisaremos as nuances discursivas que integram a canção Respeitem meus cabelos, brancos, de Chico César. Parte-se da hipótese de que por trás de um discurso militante e acusatório revelam-se diversas ambiguidades discursivas que integram a posição do autor sobre identidade negra. Os debates atuais sobre racismo acionam um posicionamento dicotômico (brancos x negros), presente na letra, mas relativizado pela ironia do uso não ortodoxo do reggae, pela ambiguidade da capa do CD, pela indefinição tonal e pelo criativo uso da vírgula, que condensa toda uma gama de deslocamentos interpretativos, contribuindo densa e criticamente para o pensamento atual sobre negritude no Brasil.

Quando o preto fala…

Os artefatos culturais midiáticos reverberam pela sociedade visões de mundo, sentimentos e estratégias de pertencimento que são negociados a partir de sua apropriação. Nesse sentido, a “cultura da mídia” é um campo de debates, disputas, negociações e, por vezes, consensos coletivos (Kellner, 2001, p. 10). Os produtos veiculados em larga escala são, portanto, políticos; e, eventualmente, alguns desses produtos mexem de forma bastante direta em temas densos e espinhosos, com variados graus de alcance e ressonância.

Para este artigo, isolamos a canção Respeitem Meus Cabelos, Brancos1, lançada em 2002, pelo cantor e compositor paraibano Chico César. A simbiose entre as representações da identidade negra e a música popular são apontadas por diversos autores, que sublinham a importância deste artefato cultural como eixo de negociação da luta dos negros contra o racismo em todo o mundo. Stuart Hall situa a música, ao lado da corporalidade e do “estilo”, um dos três elementos significativos que constituem o “repertório negro” (2003, p. 342). Para Paul Gilroy, em seu clássico O Atlântico Negro,

“examinar o lugar da música no mundo do Atlântico Negro significa observar a auto compreensão articulada pelos músicos que a têm produzido, o uso simbólico que lhe é dado por outros artistas e escritores negros e as relações sociais que têm produzido e reproduzido a cultura expressiva única, na qual a música constitui um elemento central e mesmo fundamental.”.

(2001, p. 161)

Essa perspectiva ecoa a noção – cara à etnomusicologia – de que a música é “um sistema de pensamento humano e parte da infraestrutura da vida humana”, sendo a experiência musical uma “ação social que pode ter importantes consequências em outras formas de ação social” (Blacking, 1995, p. 223). No Brasil, diversos autores (Sodré, 1998; Sandroni, 2001; Coutinho, 2001) buscam estabelecer nexos estreitos entre a construção da identidade negra e o samba, sublinhando seu caráter político. Além do prestigiado gênero, é possível afirmar que, do maracatu ao hip hop, do jongo ao tambor de crioula, quase todas as práticas musicais associadas à identidade nacional ou regional apresentam de alguma forma conexões com debates sobre negritude, escravidão e subalternização. A própria identidade nacional está atravessada pela conflituosa negociação do papel da população negra na sociedade, balizada pela escravidão e pelo racismo.

(…)

Por respeito aos direitos autorais, continue lendo no original:



Fonte:

Trotta, F. da C., & dos Santos, K. J. F. P. (2012). Respeitem meus cabelos, brancos: música, política e identidade negra. Revista FAMECOS19(1), 225-248. https://doi.org/10.15448/1980-3729.2012.1.11350


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